Quer colecionar carros antigos?
Conheça custos e regras.
Entenda as
especificidades do "antigomobilismo"
A compra de um carro
antigo é muito comparada por colecionadores à compra de uma obra de arte.
Não que os carros antigos possam ser considerados investimentos, como
ocorre com as obras de arte, uma vez que o mercado de
"antigomobilismo" ainda não está bem desenvolvido no Brasil,
dizem especialistas. Mas ambos os bens têm especificidades no processo de
compra e venda e podem se valorizar e render lucros para seus proprietários.
A partir desta quinta-feira até sábado, dia 24, a cidade de São Paulo sedia
um grande evento de colecionadores no Pavilhão do Anhembi: o Salão
Internacional dos Carros Antigos (Siva), durante o qual ocorrerão inclusive
leilões de alguns modelos. Quem é fascinado por esse universo, mas ainda
não é colecionador, deve saber que o "antigomobilismo" envolve
uma série de custos e regras. Do processo de aquisição à contratação do
seguro, veja os custos de se manter uma coleção e o que deve ser levado em
conta:
Pesquisa do modelo e de preços
Os carros antigos são normalmente comprados de três formas: por meio de
vendas diretas, em leilões ou por importação. O primeiro passo para a
compra é a pesquisa do modelo e do valor do carro. “Existem muitas opções
de modelos porque a indústria automobilística é mais do que centenária,
então a escolha do modelo é a primeira coisa a se fazer”, afirma Otávio
Carvalho, presidente do Veteran Car Club de Minas Gerais.
Escolhido o modelo, o segundo passo é a pesquisa do valor de mercado do
carro. Segundo Carvalho, os valores podem partir de 2.000 reais, por um
carro já bem desgastado, mas o céu é o limite. “É importante consultar os
principais vendedores de carros antigos, passar a frequentar exposições,
eventos, ler publicações especializadas, sites estrangeiros e frequentar
leilões. O leilão é o lugar certo para dizer o valor de qualquer objeto,
porque ele mostra o preço que alguém esteve disposto a pagar por aquilo”,
diz.
O Salão Internacional dos Carros Antigos é uma boa oportunidade para quem
quer conhecer um pouco mais sobre o “antigomobilismo”. Durante o evento,
serão promovidos leilões da Private Collections, na sexta e no sábado. As
regras e outras informações sobre o leilão podem ser pesquisadas no site da
empresa.
O presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), Henrique
Thielmann, dá algumas dicas para quem quer entrar no mercado de coleção de
carros antigos. “Para quem está começando, eu sugiro que compre um carro
nacional, como um Opala, que tem um preço razoável e tem procura. É um
carro que dá para vender sem grandes prejuízos. Outra dica é que o carro
não deve ser comprado já se pensando em fazer restauração. E por fim, a
compra não pode nunca ser baseada única e exclusivamente na emoção. É
essencial procurar e pesquisar “, diz.

Ambos os especialistas recomendam também que o interessado em conhecer
melhor o mercado se associe aos clubes de carros antigos. Esses clubes
possuem profissionais especializados em "antigomobilismo", que
podem ajudar o comprador mais inexperiente a entrar no mercado. No site da
FBVA, é possível consultar os clubes por região e os contatos de cada um
deles.
A compra de carros antigos diretamente com o proprietário requer
praticamente os mesmos cuidados da compra de carros seminovos e usados.
Fazer um test drive, verificar se o carro tem algum tipo de pendência no
Detran, checar se o veículo passou por acidentes olhando sua documentação,
ou identificando diferenças de tonalidade na pintura são algumas das dicas
que devem ser seguidas para a compra de um carro usado e que também se
aplicam aos carros antigos.

“O comprador deve procurar saber se aquele carro não é modificado, se não
foi batido e se não tem problema com fiscalização. São coisas básicas que
todo mundo faz na compra de qualquer carro usado. Na compra do carro
antigo, o comprador só deve ter um cuidado adicional: ele não deve deixar
de observar esses detalhes pela emoção”, afirma Thielmann.
Leilões
Nos leilões, a orientação dos especialistas é saber antes de participar
qual é o modelo desejado e não se desvirtuar por outros modelos ofertados.
“Antes de participar de um leilão, primeiro é preciso saber o que você quer
comprar e não o que está sendo vendido. Em segundo lugar, deve-se estipular
um valor limite antes de o leilão começar”, orienta Thielmann.

O presidente do Veteran Club também recomenda que o comprador examine o
carro que será leiloado antes do evento. Segundo ele, os veículos que são
leiloados geralmente ficam em exposição antes de o leilão começar.
Cada leilão possui regras próprias. Segundo Carvalho, alguns leilões mais
sofisticados exigem que o interessado se inscreva previamente, apresente
alguns documentos e até mesmo garantias bancárias para participar. Já
outros, que possuem lotes (como são chamados os carros leiloados) de valor
menos significativo, permitem que o interessado se inscreva pessoalmente,
na hora do leilão.
As formas de pagamento também podem variar. Via de regra, ao anunciar o
lote, o leiloeiro explica se o proprietário permite que o pagamento seja
parcelado, o número máximo de prestações, ou se o bem só poderá ser
adquirido à vista.
Após término do leilão, o comprador que deu o lance vencedor se reúne com o
proprietário do carro e define, ali mesmo, os pormenores da venda.
“Terminado o leilão, comprador e proprietário decidem a forma de pagamento
e assinam o compromisso de compra e venda. Eles decidem lá mesmo se o carro
já vai ser levado pelo novo proprietário, ou se será entregue depois”,
afirma o presidente do Veteran Club. Ele apenas ressalta que, no caso dos
leilões de carros mais caros, garantias adicionais podem ser exigidas e a
venda pode não ser concluída imediatamente.
Segundo a Portaria 370 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior (MDIC), é permitida a importação de automóveis com mais
de 30 anos de fabricação. Mas, segundo explica o presidente da FBVA, o
comprador deve importar o carro apenas se ele tiver em perfeitas condições
de originalidade e conservação, de maneira que esteja apto a receber o
Certificado de Originalidade, que será utilizado posteriormente para o
licenciamento. "Para obter este certificado, o carro passa por uma
vistoria e deve obter uma nota mínima nos quesitos 'originalidade das
peças' e 'estado de conservação'", afirma.
A vistoria e a emissão do Certificado de Originalidade são realizadas por
entidades credenciadas pelo Denatran. No processo, são analisados itens
como mecânica, elétrica, tapeçaria, estrutura, acessórios/itens de
controle/segurança. A obtenção deste certificado é o que garante ao proprietário
o direito de utilização da placa preta, que distingue os carros antigos dos
demais.

Não é permitido que o valor do carro seja pago pelo comprador diretamente
ao vendedor no país de origem. O pagamento deve ser feito no Brasil, após a
emissão da Licença de Importação pelo Departamento de Comércio Exterior
(Decex) do MDIC.
Os impostos incidentes sobre a operação são: Imposto de Importação de 35%
sobre o valor do custo e do frete (C&F); Imposto sobre Produtos
Industrializados (IPI), de 25% sobre o valor do bem; Imposto sobre
Circulação de Mercadorias (ICMS), de 18% sobre o valor do carro (que pode
variar de acordo com o estado); COFINS, à alíquota de 9,6% e PIS/PASEP, à
alíquota de 2%, também sobre o valor do carro.
Thielmann recomenda que a operação seja amparada por um Despachante
Aduaneiro, por exigir Licença Prévia de Importação, pagamento de tributos
federais e estaduais.
Conforme o presidente do Veteran Club destaca, o valor final da compra do
carro importado chega praticamente a ser o dobro do valor do carro em si.
“A importação acontece mais quando o sujeito só quer aquele carro e ele não
é encontrado aqui no Brasil”, diz.
Manutenção
Após a compra do carro, o presidente da FBVA recomenda que seja feita uma
revisão no veículo para evitar custos futuros. “Se você fizer uma revisão
no carro logo após comprá-lo e trocar peças e tudo que for preciso, quase
não haverá custo de manutenção. Como o carro antigo não costuma ser usado
no dia a dia, o gasto com manutenção acaba sendo pequeno”, orienta.
Otavio Carvalho, que tem seis carros antigos, afirma que a manutenção é
mais barata do que a de um carro novo ou seminovo que é usado todos os
dias. “A manutenção é mais ou menos a mesma de um carro comum. São gastos
com gasolina, troca de óleo, filtros, despesas que qualquer carro tem. Mas
como o carro antigo é menos usado, o custo é menor. É possível que se tenha
algum gasto com restauração, mas para manter o carro, o custo é muito
pequeno”, diz.
Ambos os especialistas recomendam que o comprador já escolha um carro que
não precise de muitos gastos com restauração. Mas se a restauração tiver um
alto custo, seu valor já deve ser planejado junto com a compra do carro.
Carvalho ressalta ainda que não se deve gastar mais com a restauração do
que com o valor do carro em si. “Não adianta gastar 100.000 reais na
restauração de um ‘Fusquinha’ porque ele nunca vai ser vendido por 100.000
reais e o proprietário vai ter prejuízos”, adverte.
Sobre os impostos e taxas, em alguns estados como São Paulo, Rio de Janeiro
e Minas Gerais, há isenção de IPVA para veículos com mais de 20 anos. E os
carros que possuem a placa preta, mencionada acima, também são isentos da
inspeção veicular.
Seguro
Tanto Thielmann quanto Carvalho afirmam ser praticamente impossível conseguir
um seguro para carros antigos. Pelo alto valor que o carro pode ter e pela
dificuldade na reposição de peças, muitas seguradoras consideram o seguro
de carros antigos um negócio desvantajoso. Por isso, segundo os
entrevistados, normalmente não se faz seguro para carros com mais de 20
anos.
O presidente da FBVA afirma, porém, que é possível contratar seguros contra
terceiros, isto é, que cobrem eventuais danos causados a outras pessoas e
veículos em um acidente. “O seguro contra terceiros é barato, custa cerca
de 700 reais por ano, e tem uma cobertura de 100.000 a 150.000 reais. Eu
sugiro que os colecionadores o façam porque, além de resolver o problema do
outro carro em um acidente, você tem assistência 24 horas. Se o carro tiver
uma pane, por exemplo, a assistência pode ajudar”, diz.

Carro antigo no Brasil ainda não é investimento
Diferentemente do mercado de carros antigos dos Estados Unidos e da Europa,
o "antigomobilismo" no Brasil ainda não é um mercado totalmente
consolidado, apesar de estar caminhando nesse sentido, diz Otávio Carvalho.
“Por esse motivo, comprar um carro com o objetivo de investimento aqui é
muito arriscado. Enquanto nos Estados Unidos e na Europa o mercado é muito
ativo, aqui tudo depende muito do mercado informal, da conversa entre os
colecionadores”, esclarece.
É exatamente essa incerteza em relação à demanda e à oferta que tornam a
compra de carros antigos um investimento arriscado. De acordo como
presidente da FBVA, pode-se dizer que a liquidez é o único e grande risco
do investimento. Segundo ele, é muito difícil um comprador perder dinheiro
com um carro antigo, porque com o tempo eles tendem a se valorizar. “O que
determina o valor do carro antigo é a vontade de um colecionador vender e
de outro comprar. Por isso, o proprietário pode perder dinheiro se precisar
vender o carro em um momento e não encontrar alguém disposto a pagar aquele
valor, mas eu nunca vi colecionadores perderem dinheiro”, diz.
Por conta dessa insegurança em relação à liquidez, Thielmann afirma que a
compra do carro antigo deve ser feita apenas com o objetivo de usufruir do
bem. "Qualquer investimento, mesmo uma poupança, podem trazer
rendimentos mais seguros que o investimento em carros antigos".
Por Priscila Yazbek,
de Exame.com |
22/11/2012
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